Sevilla tiene un color especial
NUNCA TE RINDAS.
Anna
1/20/20264 min read


O conteúdo dessa viagem (e consequentemente desta postagem no blog) será um pouco diferente.
Nos últimos anos, após muito gritar desafinada por aí, desejando desesperadamente ser ouvida, estive em estado de profundo silêncio e recolhimento. A vida me guiou para um novo patamar de conexão comigo mesma e com minhas necessidades mais primordiais.
No dia 13 de maio de 2025, após meses sentindo uma dificuldade extrema para manter vínculos e me comunicar efetivamente com o mundo exterior, busquei recursos e fiz meu primeiro exame de audiometria. Foi detectada uma perda significativa: meu exame acusou uma DA (deficiencia auditiva) de 40dB bilateral em U.
Não foi uma novidade totalmente inesperada, mas ainda assim me abalou muito emocionalmente. Fato é que eu sempre senti falta dos sons mais graves no meu range, mas ainda não havia investigado isso a fundo. Confesso: embora desconfiasse, tinha muito medo desse resultado. Entretanto, não olhar para isso vinha me trazendo prejuízos cognitivos, além da minha autoconfiança, e sobretudo financeiros. Além do mais, durante todo o período que consigo me lembrar, também não escutava sons de goteiras, pássaros, alguns instrumentos em determinadas músicas, brigas em casas vizinhas e vários outros sons que as pessoas ao meu redor sinalizavam nas conversas. Desde os 11 anos, ao atender chamadas telefônicas, coloco no auto-falante e perto dos ouvidos, para perceber melhor.
Com o passar dos anos, as conversas ficavam cada vez mais "pela metade", com informações incompletas, abafadas e/ou incompreensíveis no meio de todas as falas. E ultimamente, um terrível desconforto em pedir para repetirem sentenças (pela 3ª vez ou mais) tomou conta de mim. Nos últimos anos isso piorou um pouco mais. Em eventos e situações sociais, comecei a sorrir, a balançar a cabeça em concordância para absolutamente qualquer abordagem ou assunto que tentassem desenvolver comigo. Isso me gerou certa ansiedade social, pois vivi um sentimento de não pertencimento muito grande. Ademais, meu cérebro gastava muita energia para "completar" as lacunas faltantes da minha perda auditiva.
Uma parte do meu mundo, um sentido vital para minha troca com outros seres humanos, faltava quase que pela metade. É claro que isso traria demandas. Muitas vezes, por compreender mal o que me foi dito, desconfiava de estarem "tirando onda" comigo. O que me levou a uma posição de reatividade em algumas situações específicas. Cuidado! Flores tem espinhos. Tomar conta deste samskara gerou certa culpa (por um tempo). Hoje compreendo que "me defender da incompreensão" (gerada pela minha própria aparelhagem física limitada da escuta) era só uma ferramenta que desenvolvi para me proteger do que quer que se apresentasse como uma ameaça, enquanto eu não tivesse nova ferramenta. É o que é. Cada um vive como pode, até a consciência liberar a chave que lhe dá a chance de viver melhor. O medo é um sabotador profissional.
Na consulta após o exame, foi-me orientado o uso de aparelhos com urgência. Fiz outras 4 consultas com exame (just in case), e o resultado foi esse mesmo. Não vou suavizar, são dispositivos caros. Eu não podia adquiri-los naquele momento. Foi um período delicado. Batalhamos bastante por 6 meses até conseguirmos mudar a história. A wells me salvou. Forneceu condições muito especiais. Jamais vou me esquecer do cuidado, parceria e orientações para que finalmente tivesse meu aparelho em outubro de 2025.
Foi então que decidimos ir a Seville (novamente). Com outros ares. Eu precisava ouvir os pássaros. Sentei-me em um banco num parque, perto de uma pequena cascata. Amoleci totalmente, e apenas senti no espiral do meu ouvido o tamborilar delicado das gotas que espirravam na malha d'água que forrava o chão num fluxo que ia sabe-se lá para onde. Andando na rua, os urros vitoriosos da torcida de um jogo que havia se encerrado naquele exato momento, saíam eufóricos do estádio, parecia música. Na calçada, o som da voz de um pai com sua criança pequena a ensinar-lhe como ler o ambiente e caminhar no mundo. Estava muito sensível e emocionada.
Busquei me informar, e descobri que ainda leva um tempo até que me acostume com o uso dos aparelhos. A adaptação pode levar até um ano. Ou mais. No momento, para mim, é como se tudo fosse novo. Cada ida à rua é um mar de estímulos que eu antes não conhecia. O som das pedrinhas soltas no asfalto sob os pneus do carro na rodovia. O bip do elevador no andar de baixo numa sala de espera. O som de um cachorro na rua ao lado a ladrar para um gato. O vento por baixo das portas faz UuuuUUUuuuuUUu. Cada segundo contido no período que comporta o som de uma simples onda do mar. Desde o momento em que ela começa a se formar em onda, até que ela se desenrole com o vento e enfim se quebre na areia, explodindo deliciosamente em milhares de bolhas de espuma fecunda. É indescritível. Viver tantas sensações novas, através de um sentido que (para você leitor) pode ser tão comum. Para mim, é tudo que precisava para me sentir parte.
Como consegui cantar e até gravar músicas sem escutar com qualidade? Penso que foi coragem, somada a uma vontade absurda de projetar minha voz no mundo. Acho que não saberei responder isso, mesmo que o tempo passe. É um mistério bonito.
Hoje estou reaprendendo a ouvir. Assimilando palavras. Aliás, tenho esse zumbido quase ininterrupto que me causa estresse psíquico, mas busco aliviá-lo e integrar através de exercícios de aceitação e meditação. Em alguns dias e horários ele fica mais alto. Observei que é geralmente nos dias mais agitados, quando chega a noite, antes de dormir. Mas não é exclusivo desses dias. Ao que parece, médicos acusam não ter cura. Entrei em um grupo de apoio para pessoas com as mesmas condições, e tem sido acolhedor e adorável ler relatos e dividir experiências com pessoas que vivem com uma condição parecida com a minha. Eu busco uma visão holística e positiva desses fatos, pois a vida continua. O mundo, quando em harmonia com o divino, tem muito a oferecer. A vida não espera, ela segue linda, abundante, e dadivosa. Bora viver intenso, e, sobretudo, curtir novos sons. 🤘🏼
NUNCA TE RINDAS.


























